Riqueza natural: Araucárias de Caçador e Matos Costa são estudadas pela UFPR

Pesquisadores da Universidade já clonaram as duas plantas e estão agora na fase de multiplicação do material genético diferenciado



Por: Alessandro Schneider

O Jornal ExtraSC divulgou há poucos dias a colheita recorde de pinhas em uma única araucária, ocorrida em propriedade no interior de Matos Costa. A árvore produziu 920 pinhas no total, das quais restaram intactas após a colheita 830. Uma grande produção já havia ocorrido no local em 2017. Fenômeno parecido vem ocorrendo em Caçador, uma outra araucária no bairro dos Municípios também já chamou a atenção pela quantidade de pinhas colhidas ao longo dos anos.

Ai veio a questão? Por que nestas duas araucárias nascem tantas pinhas e em outras não? Para falar sobre isso entramos em contato com os dois pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR) que estudam a espécie e já clonaram estas duas plantas por meio da técnica de enxertia, Valdeci Constantino e Flávio Zanette.


Pesquisador Flávio Zanette, com um dos clones da pinheira caçadorense plantado em Curitiba

Constantino é Engenheiro Florestal, doutor em Agronomia (Produção Vegetal), e estuda o pinheiro de Matos Costa desde 2020, quando esteve na propriedade de Sérgio Jaskiu para a retirada de material genético da árvore. Zanette é Engenheiro Agrônomo, doutor em Fitotecnia e também professor aposentado da UFPR. Estuda a pinheira de Caçador desde 2015.

Constantino explica que a araucária, assim como qualquer espécie vegetal, gosta de terra fértil. No entanto, é uma árvore encontrada em boa parte da região sul do Brasil, em solos férteis e solos mais pobres, permitindo concluir que ela se adaptou aos diferentes tipos de solo. Logicamente a terra mais fértil vai resultar em maior crescimento e desenvolvimento da araucária e, consequentemente, potencializar a produção de pinhões nas árvores fêmeas.


Pesquisador Valdeci Constantino, na pinheira de Matos Costa

Isso ocorre na propriedade de Sérgio Jaskiu em Matos Costa. Lá são encontrados diversos fatores benéficos que podem ter contribuído para a grande produção de pinhas em uma única árvore.

O pesquisador ressalta, que se por um lado a terra fértil é muito importante, por outro também existe a questão genética. Esses dois fatores são indispensáveis para que a araucária tenha uma boa produção. Imaginem uma pinheira com uma boa genética crescendo em uma terra ruim, a produção não vai ser tão boa. Agora imaginem a mesma planta crescendo em uma terra fértil, isso vai aumentar muito as chances da araucária produzir mais, pois ela vai ter todos os nutrientes de que precisa para expressar seu potencial genético. A falta de determinados nutrientes pode afetar processos metabólicos importantes para que a planta cresça e frutifique, resultando na baixa produção de pinhões.

As plantas de Caçador e Matos Costa

Nos estudos dos dois pesquisadores da UFPR, as plantas de Caçador e Matos Costa foram selecionadas justamente pelas suas características de alta produtividade.

A araucária de Caçador, na propriedade de Vânio Czerniak, falecido em 2019, continua sendo cuidada pelos familiares, e já foi clonada em 2015 pelo professor Zanette, quando produziu 674 pinhas. O viveiro da Universidade Federal do Paraná já possui 3 clones desta árvore que completaram seis anos agora em abril, e o incrível é que iniciaram a produção de pinhas em 2019, com apenas 4,5 anos. Atualmente os clones têm aproximadamente quatro metros de altura e estão com pinhas formadas em 2019, 2020 e botões que abriram no inicio desse ano, nos ramos e grimpas, confirmando o potencial genético dessa árvore.


Pinheira caçadorense, na propriedade de Vânio Czerniak (in memorian)

“Trabalho com araucárias desde 1985, e então chegou um momento em que me interessei em selecionar araucárias mais produtivas, o que se chama no processo de pesquisa genético, de seleção massal, procurar na natureza, um indivíduo superior aos demais. Por meio da imprensa, ficamos sabendo que em Caçador havia essa planta. Um orientado meu em doutorado na época, e que era da região, Moisés Daner, foi buscar mais informações e fez contato com o proprietário do terreno, o Vânio, para quem propusemos fazer um estudo daquela planta para ver se aquelas características eram genéticas ou questões ambientais de onde estava inserida”, relembra o professor Zanette.

O pesquisador comenta que o orientando Moisés fez sua tese de doutorado em cima disso e coletou alguns ramos da pinheira de Caçador, de onde foi extraído o DNA e comprovado que era uma planta diferenciada. A clonagem então foi programada e em 2015 o professor Zanette esteve em Caçador para buscar alguns brotos da pinheira, para em seguida iniciar a enxertia. “Tivemos sucesso na enxertia de algumas plantas já em Curitiba e obtivemos os primeiros clones de Caçador. Agora em 2021, já temos plantas desta pinheira enxertadas, que nos servem como matrizes, para fazer novas mudas. Essas matrizes já estão com pinhas prontas para cair este ano. Portanto, com seis anos de idade estamos colhendo os primeiros pinhões”.


Pinheira de Matos Costa, na propriedade de Sérgio Jaskiu 

Sobre a planta de Matos Costa, Valdeci Constantino também apoia seus estudos nas características encontradas no local, além é claro da genética da planta. “Posso citar como exemplos, o espaço livre para o crescimento dos galhos e polinização, abertura de sol para fotossíntese, o clima e altitude do município, um ótimo microclima (proximidade de rio) e boa disponibilidade de nutrientes na terra, que possivelmente é resultado da nutrição ofertada para as outras culturas que o proprietário mantém bem próximo da araucária superprodutiva, como ameixas e amoras. As raízes de uma araucária se estendem por longas distâncias facilitando a absorção dos nutrientes ofertados para as outras culturas, neste caso as frutas. Não podemos esquecer o zelo do senhor Sérgio em manter na base da araucária, boa quantidade de matéria orgânica produzida na propriedade, que ao se decompor, também vai disponibilizar nutrientes”, avalia Constantino.

E o que elas tem de diferente?

“O mais maravilhoso nesta árvore de Caçador, é a precocidade da floração, que inicia em fevereiro, quando o normal é agosto e setembro. Outra característica marcante é o nascimento de pinhas nas grimpas (sapé), que são os galhos menores. Essa é uma questão genética maravilhosa desta araucária. E esse potencial enorme de produção ficou evidenciado em 2016, quando o falecido Vânio colheu 23 pinhas em um único galho. Outro fato importante é que as características genéticas da pinheira de Caçador permaneceram nas plantas enxertadas, mesmo sendo plantadas em outra região, no caso Curitiba. Agora estamos com a concessão da família do falecido Vânio, em nos ceder o material e dar exclusividade em fazer a pesquisa e produzir mudas para oferecer aos interessados”, esclarece Zanette.

O pesquisador Constantino diz que não conhece pessoalmente a araucária de Caçador, mas já teve o privilégio de trabalhar com material genético desta árvore fazendo enxertos. Desde abril de 2015 ele acompanha o desenvolvimento das plantas que enxertou junto com o professor Flávio Zanette, as quais já iniciaram a produção.

“Não tenho muita propriedade para falar dessa araucária, mas segundo relatos do professor Flavio Zanette, ela está isolada em um quintal e a mais de 1 km distante dos machos, mas mesmo assim consegue ser polinizada. Provavelmente na época da polinização exista um corredor de vento dominante que passa primeiro sobre os machos carregando os pólens para cima dela. Além da boa genética, outros fatores podem estar contribuindo, como por exemplo, o clima, a altitude, o fato dela estar em local aberto, ter copa aberta e com numerosos galhos, isso facilita a polinização. Além disso, o fato dela produzir muito, indica que está em um solo fértil”.

Já sobre a árvore de Matos Costa, Constantino esteve em setembro e dezembro de 2020 coletando material genético.

“Logicamente a genética da árvore somada a um solo fértil, clima e altitude adequados, além da proximidade de um rio que mantém um microclima favorável, tudo deve contribuir para a ótima produção verificada nos últimos anos. Tudo isso são hipóteses, carecem de mais estudos para podermos confirmar”.

A enxertia é o futuro do pinheiro

Os pesquisadores da UFPR comentam que ainda é baixo o interesse pelo plantio da araucária, e um dos principais motivos é a restrição de corte imposta pela legislação. O Estado do Paraná, entretanto, deu um importante passo sancionando a lei no 2.232/2020 que estabelece regras de plantio, cultivo e exploração comercial da espécie Araucária Angustifolia. A lei garante exclusivamente àquele que plantar a araucária “o direito de explorar a madeira ou o pinhão, desde que haja comprovação do plantio”.

“Esperamos que essa nova lei estimule as pessoas a plantar araucária, pois atualmente a iniciativa tem sido mais dos apaixonados pela espécie. Esses não escondem seu encanto pela beleza cênica de sua arquitetura e porte em meio às demais árvores. Também tem aqueles que plantam porque querem se deliciar com os pinhões. Mas, muitos não plantam araucária, por considerá-la uma árvore de crescimento lento, entretanto, resultados de pesquisas indicam que isso ocorre só até o terceiro ano do plantio, após esse período o crescimento é muito satisfatório, desde que o plantio seja feito de forma adequada, em local adequado e a planta seja bem cuidada”, definem os pesquisadores.
 

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