O áudio do presidente Jair Bolsonaro pedindo o fim da greve dos caminhoneiros e o consequente esvaziamento do movimento me fez lembrar um episódio da minha adolescência, lá em Palmas, no sudoeste do Paraná.
Como naquela época não havia videogame e outros entretenimentos que os meninos de hoje possuem, um dos melhores passatempos que tínhamos era brigar na rua.
Qualquer motivo servia para uma briga. Para sair na mão ou na pedrada, dependendo da ocasião.
Certa feita um grupo de meninos estava observando os animais em um circo recém chegado ao bairro do Divino. Sim, naquela época os circos tinham leões, tigres, elefantes e macacos. Isso era uma grande atração.
Não lembro o motivo e também isso não vem ao caso, houve um desentendimento grande e quase rolou a briga. Eram os meninos do centro, contra os meninos do bairro, onde eu me incluía.
Por uma questão de estratégia dos meninos do centro, que estavam em desvantagem, a briga foi marcada para o outro dia na praça.
Eles confiavam no Kiko, um preto forte, mais velho que a nossa faixa etária, bom de briga, que vivia no centro, na casa de um fazendeiro.
Na hora marcada os meninos começaram a chegar. Mas o Kiko, esperança da turma do centro, não apareceu. Mandou seu irmão mais novo, Luiz Antonio, para dizer que ele não estava mais a fim de briga.
Foi uma decepção tão grande. De ambos os lados. Os meninos do bairro ficaram frustrados porque queriam enfrentar o Kiko. Os meninos do centro correram para suas casas porque sabiam que apanhariam.
Foi mais ou menos o que aconteceu nesse episódio pós 7 de setembro. Os caminhoneiros bolsonaristas esperavam uma voz de comando para seguirem na briga. Esperavam que o mito surgisse em seu cavalo branco e comandasse a paralisação até cair o último ministro do STF.
Mas não ocorreu. Bolsonaro, que se finge de louco, mas não é bobo, viu que esticou demais a corda no 7 de Setembro.
Mesmo tendo levado muita gente às ruas, o movimento foi bem menor do que o esperado.
Está claro que essa pauta, rotulada como antidemocrática, de fechamento do STF e voto impresso não empolga a grande massa da população brasileira.
A pauta do povo, me parece, é o preço da carne, do arroz, do feijão e da cerveja. É vacina no braço e vida tranquila sem pandemia e podendo comprar gás e gasolina para o carro popular.
Os bloqueios das rodovias só prejudicariam ainda mais a imagem já combalida do presidente.
As reações dos presidentes da Câmara, Senado e STF mostraram ao presidente que a democracia será preservada, apesar das ameaças.
A neutralidade do vice-presidente Mourão (que deve estar só esperando o pior para assumir a presidência) deixou claro que as Forças Armadas não parecem propensas a apoiar um golpe.
Ele recuou e deixou seus seguidores sem chão. Seu áudio foi o maior balde de água fria na pequena fervura que começava.
Pra completar, chamou o Michel Temer para lhe dar uns conselhos e emitiu uma nota toda “politicamente correta”.
O Kiko não foi pra briga e restou aos meninos do centro correr para suas casas, para não levarem mais uma surra.
Parece que o Kiko, segundo soube-se depois, decidiu ir trabalhar. O que seria um belo exemplo a ser seguido pelo nosso presidente.

Temer e o freio de arrumação

A ida do ex-presidente Michel Temer (MDB) ao Planalto conversar com o presidente Jair Bolsonaro e ajudá-lo a redigir uma carta à nação é mais que simbólico.
O poder econômico do Brasil não quer o País virado num pandemônio, como defendeu o presidente e alguns de seus seguidores mais afoitos.
Se manifestar, contra ou a favor de qualquer coisa, faz parte da democracia. As diferenças de pensamento são saudáveis para o engrandecimento do debate.
Mas, promover fechamento de rodovias, prejudicar a economia e ameaçar fechar instituições democráticas já vai além do limite.
Bolsonaro esticou demais a corda e Michel Temer, como sua experiência política de quem está nesse jogo há mais de 40 anos, foi ao Planalto colocar um freio de arrumação.
E, parece que pelo menos por enquanto, conseguiu. O Brasil precisa tomar seu rumo e para isso todos os envolvidos precisam fazer a sua parte.

A vitória da Lidiane e do Fically
Não há nada de injusto na tentativa do ex-vereador Valmor de Paula (PT) tentar, na Justiça, anular os votos recebidos pela chapa do Progressistas por suspeita de candidatura laranja.
A justiça eleitoral existe para isso: dirimir dúvidas que surgem durante o pleito. Foi o seu entendimento e não o dos juízes.
Mas é muito justo que o TRE tenha mantido a decisão da justiça de Caçador, assegurando os mandatos dos vereadores Fically e Lidiane Cattani.
Ambos conseguiram provar que estava tudo dentro da lei, através de seus advogados, e agora conseguirão desenvolver seus mandatos na tranquilidade de quem não está correndo risco de ser mandado para casa.

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